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quarta-feira, 8 de setembro de 2010

A valsa do óbvio

E de volta ao seu início, o cansaço da espera fustigava os sentidos, e a consciência do círculo de suas emoções entorpecia qualquer ânsia, também repetida.
Algumas experiências inéditas, e uma nova maneira de olhar o mundo, faziam-na esquecer, que eram os mesmo pés que marcavam o caminho, e os mesmos olhos que abraçavam o então desconhecido.
Sempre era repetida.
E com o coração em pedaços, tinha por conforto, a imagem de todos os outros no que agora se foi.
Eles repetiam-se.
E o desespero a rasgar-lhe o peito, o silêncio a empestiar a garganta.
A covardia era repetida.
A correria, a fuga mal dirigida, os acasos que a fazaim sorrir, era por eles que depois sentia tanta nostalgia.
Mas comumente, ora ou outra, eles repetiam-se.
E a vida de rotinas e obrigações, e as drogas baratas, e os vícios de consumo, e as noites mal dormidas, e o peso de seus amores, e a delícia de seus gozos. Tudo isso prendiam-na na cratera, no buraco em que fora parida, na escuridão de seus olhares, na desistência de suas tentativas.
Repetida fora a hora em que acostumaram-lhe a repetir o mantra dos desajustados.
Assim repetiu-se por toda a sua vida.


Recomendo a leitura desse texto ao som de "Fall:Cleaning Apartment" da trilha sonora de "Requiem for a dream"

2 comentários:

Renato Belinelli disse...

É o desejo pela fuga que consome a alma de quem na essência não quer fugir, é a pressão do ajuste que não está determinado em lugar algum, é correto dizer que isto é um buraco? É correto dizer que a loucura está na mente dos corretos, pois os loucos são aqueles que possuem seus desejos saciados sem precisar de sua razão.

Bia. disse...

Extremos não anulam a veracidade do lado oposto. E se mergulhar, se te tragar, pode-se sim dizer que é um buraco. No mais, concordo apenas.